INTEGRAÇÃO DE BACIAS?

Geocentelha 248

     A leitura mais precoce do homem sobre a terra é a da bacia hidrográfica, porque este conceito geográfico tem significado físico evidente: Do seu perímetro formado por cristas reconhecíveis ou por chapadas em que o divisor de águas é tenuemente marcado na paisagem, escoam águas para eixos topograficamente baixos, que convergem, formando rede hierarquizada de córregos, ribeirões, rios locais e grandes rios que dão nomes às bacias.
     A importância do conceito é patente. Por exemplo, diversamente da poluição atmosférica, a poluição hídrica gerada em Belo Horizonte pode atingir Petrolina a mais de 2.000 km, mas não Nova Lima aqui pertinho.
As sociedades humanas aproveitam possibilidades proporcionadas por bacias hidrográficas no suprimento de água para beber e para rega, cuja forma de adução mais econômica é por gravidade. Usam-nas também para geração de eletricidade, navegação e para aproveitar seu produto mais natural, os peixes.
     O bom uso da terra no sentido mais amplo dado pela lógica da gestão procede da leitura mais completa possível de configurações e possibilidades, que darão caminhos de menor resistência ao desenvolvimento ambientalmente compatível.
     No afã de otimizar o aproveitamento de dado uso, governos mal orientados prejudicam outros usos possíveis, desintegrando o território. Há muitas formas de fazê-lo a partir de leituras mal feitas e de intervenções mal concebidas. Barragens de hidrelétricas podem desintegrar bacias hidrográficas por bloqueio à navegação, à migração dos peixes, ao transporte de sedimentos. Em muitos casos esse grande mal-feito pode ser neutralizado pela construção de eclusas, escadas, elevadores, lavra de areia por dragagem ou por sifonamento.
     A pior das desintegrações é a resultante de diversões fluviais definitivas, como a transposição do São Francisco. O artificialismo dela é evidente, por ferir de morte a lógica mais elementar, quando sustenta o argumento de que outorgas não confirmadas em captações reais poderão ser anuladas, gerando-se daí excedente de vazão outorgável que poderia ser transferido para outra bacia, não para pretendentes da mesma bacia. Aí uma explicação possível para os dois níveis de transferência, o básico, de 26 m3/s, e o ampliado, ocasional, de 127 m3/s. Sendo inacreditável que permaneça ociosa por tempos indeterminados uma capacidade de 101 m3/s, haverá pressão para fazê-la permanente em detrimento dos cedentes. A ação do Governo Federal, mandando para a lixeira o indiscutível valor das potencialidades territoriais, poderá prosperar, com a passividade dos mineiros e de seus governantes.

Belo Horizonte, 07 de ABRIL de 2008.


Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo, Membro
da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete


O Tempo; Opinião, p. 23; 11/04/2008

Mais uma vez, é Páscoa

Ângela Togeiro
Membro efetivo da ACLCL

     Páscoa me leva ao passado.

     À morte de Jesus, o Cristo. À multidão que assiste impassível. Alguns, presos nos seus medos, no medo da força policial, no medo de serem discriminados se reagirem. Medo de se perder o pouco ou até o nada que se tem – a liberdade do corpo. A liberdade do espírito. Medos indevassáveis... Outros, presos na euforia patológica de ver sangue escorrer. No prazer de ver a morte chegar e ceifar a vida...

     Páscoa me traz de volta ao presente. Às mortes dos Cristos modernos. Situações semelhantes. À multidão que assiste impassível. Pouco mudou. Mas a Páscoa está aí para nos fazer repensar. Mudar ou aceitar ficarmos presos nos nossos medos, nas nossas patologias. Mudam-se os nomes, adaptam-se situações – novo modus operandi, ao modus vivendi da ocasião... Hoje temos miséria globalizada, crianças morrendo de fome, governo sustentando bancos, mantendo a taxa de juros para privilegiar o capital, a taxa de inflação fingidamente baixa, gerando mais e mais desemprego. E tudo, tudo (hipoteticamente) feito em nome da Família, à custa da Família. Pois ela é a única que perde. Sim, a Família, a cellula mater, embrião de qualquer sociedade. Seria tão diferente nosso tempo do tempo de Jesus? Não, só se revezam formas de organizar a supremacia sobre o próximo. Seu símbolo mágico, o Ovo de Páscoa, se parte e se reparte para o renascer da alma, da plenitude da vida, da união verdadeira entre os homens, do deixar de estar apenas lado a lado, para a busca e prática da Verdade. Pena que nem todos se entregam à simplicidade de romper a própria casca. Pena. Pois, presos nelas, somos ilhas, ilhas humanas, não chegaremos a lugar nenhum, a não ser a este renascer contínuo e improfícuo, doloroso e de falsa cegueira que vivemos geração a geração.

     Pelos séculos afora, todo ano, a Páscoa vem despertar a gente... Feliz Páscoa.

A floresta amazônica e as outras 1

Geocentelha 245

Nem sempre concordo com hipérboles do nosso Presidente, iniciadas com o “nunca na história deste país”, mas dia desses presenciei afirmação sensata e peremptória dele como a pedir-nos que acordemos, quando dizia que competia também aos europeus replantarem florestas por eles derrubadas. Lembram-se do celeiro romano do norte da África, implantado depois das guerras púnicas, da mitológica floresta de Sherwood, de uma Irlanda arbórea e não daquele campo de golfe aparadinho; em zona de influência próxima, da terra “onde corriam leite e mel”?

Considero o aquecimento global uma possibilidade geológica concreta, depois de ter lido “The beginning of the technogene”, de Ter-Stepanian (IAEG Bull 38, 1988). Depois de discorrer sobre o crescente uso da energia num painel muito mais amplo do que essa estreitíssima raia do efeito estufa, dada como a última palavra em profecias científicas, ele termina de modo pessimista prevendo a morte termal do planeta.

O aproveitamento geopolítico global, com fins neocolonialistas, torna-se cada dia mais óbvio: Ao Brasil, aos países equatoriais africanos, aos do sudeste da Ásia, a responsabilidade pela manutenção das florestas e da biodiversidade que sustentam. Acentuam a relevância da floresta amazônica e a especial responsabilidade do Brasil.

Acho que devemos manter extensões mínimas dos biomas naturais, mas em perspectiva de nossos interesses. Desde as guerras púnicas, os europeus nos devem pelo menos uns 20.000.000 de quilômetros quadrados de florestas pré-antrópicas. Foram esses que devolveram à atmosfera bilhões de toneladas de CO2 que estavam fixados em condição de equilíbrio dinâmico. Por outro lado, se a floresta amazônica, 1 sexto daquilo tudo, está de pé (ainda), o desequilíbrio ocorreu a despeito dela pela queima de carvão, petróleo, gás e criação de gado.

Que se cometam erros de avaliação admite-se, mas forçar comprovações como atribuir fenômenos independentes do aquecimento global como provas dele é inaceitável porque isto levará a humanidade a cuidar de problemas imaginários. Por outro lado a mídia mundial, adestrada como um cão pastor, nunca deixa de completar uma reportagem sobre calor e incêndios sem atribuir o fato ao aquecimento global, mas se esquece de dar destaque mínimo ao resfriamento momentâneo do ano passado, ao atual inverno infernal da China e à nevasca do ano passado em Buenos Aires, por exemplo. Ouçamos então o Presidente, que não é mineiro, mas desconfia bem.

Belo Horizonte, 17 de fevereiro de 2008


Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo


O Tempo; Opinião; p. A10; 22/02/2008

INCLUÍDO NOS EXCLUIDOS

Geocentelha 244

     Entre governo federal, estadual e municipais sou loteado por órgãos diversos, estatais, e por entidades privadas. A lista de meus proprietários é grande e somando porcentagens, restaram para mim e família uns 6%. Fiquei pessoalmente com 3%. Pensando bem, nem com isto, porque me sinto agora excluído de decisões ? que afetam minha vida ? que já foram minhas.

     George Orwell via o totalitarismo em “1984”, que li em 1970. Em “Nos passos de Hannah Arendt” (Laure Adler, 2005), tomo conhecimento de preocupações dela no pós-guerra com um futuro que poderia ser marcado por totalitarismos em gestação ou previsíveis. Em 1999 atrevo-me a incluir no livro “Geologia urbana para todos – Uma visão de Belo Horizonte” o capítulo “A reabilitação do Homem” por considerá-lo muito diminuído em suas possibilidades de realização plena de anseios naturais, ele que, diferentemente dos demais seres animados, e dos inanimados, é componente exclusivo de uma geosfera, a Noosfera, de cuja ação depende o futuro da humanidade, porque dela depende a manutenção de uma natureza capaz de assegurá-lo.

     Lei natural diz-me que o êxito da Noosfera nessa ação decisiva deve contar com todo o potencial de ação desenvolvido por meio de educação formal e familiar, sob a égide do livre arbítrio das pessoas bem intencionadas, de que nenhuma estrutura estamental pode duvidar. Mas o que ocorre? Não tenho a hipótese de poder exercer o direito de morar numa cidade brasileira acima da cota 1800 porque o Código Florestal não permitiria, não havendo qualquer explicação para a absurda proibição. Não poderei ensinar, antes dos 16 anos, a meus futuros netos o valor do trabalho, como meus pais me ensinaram precocemente, porque poderei ser confundido com explorador do trabalho infantil. Eu nada posso, porque tudo é crime, para gáudio de criminosos verdadeiros, ambientais ou sociais, que assim dividem comigo o olho já escasso e mal preparado do poder de polícia em todas as áreas atingidas.

     Estou então às portas da imobilização e da inutilização total. Eu, que já cortei campos de atividade profissional invadidos totalitariamente pela Lei, tomando-me o sagrado dever de pensar, objeto de juramento na graduação, sofro porque sei que não sei qual dos desperdícios rituais, determinados pela grande Invasora, atinge mais fortemente a humanidade, se o de gigantescas massas animais não consumidas por proibições mal explicadas ou de capacidades noosféricas absolutamente indispensáveis totalmente dispensadas.


Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo

O Tempo; Opinião; p. B6; 8/02/2008

O BAFO DO MAUNA LOA1

Geocentelha 242

     O Mauna Loa é vulcão ativo do Havaí, de condição geológica singular, porque construiu o cone emerso desde o assoalho do Pacífico. As ilhas do Havaí dispõem-se em linha reta na direção noroeste. As mais a noroeste são cones inativos, enquanto as maiores, a sudeste, têm vulcões ativos entre os quais o Mauna Loa. Enquanto as ilhas se formavam por erupções sobre ponto quente fixo sob a crosta oceânica, esta deslocava-se como esteira rolante para noroeste; afastando-se do ponto quente, as ilhas iam-se esfriando e seus vulcões extinguindo-se. O leitor pode imaginar-se deslocando um tabuleiro comprido raso com gordura talhada ao fundo sobre uma vela fixa. Em cada parada do tabuleiro, ele observará e formação de um “vulcãozinho” de gordura derretida. A cada deslocamento do tabuleiro o vulcãozinho anterior solidifica-se e um novo surge ao lado. Assim formou-se o Havaí.

     Nos vulcões ativos gases são expelidos para a atmosfera, sendo mais comuns o vapor d’água, CO2 (gás carbônico) e SO2.

     No livro de Al Gore, “Uma verdade inconveniente”, edição RODALE, N. Y., 2006, vemos o autor, prêmio Nobel da Paz, afirmar, página 38, que seu professor Roger Revelle e Charles David Keeling implantaram em 1958 um sistema de medição de CO2 no cume do Mauna Loa, segundo ele a escolha do local isolado tendo obedecido à conveniência de evitar contaminação das medições por CO2 industrial.

     Sendo o Mauna Loa fonte natural de CO2 primário, e sua atividade francamente pulsativa, a escolha deveria ter recaído sobre a ilha mais a noroeste, inativa. Alertado por colega, antigo aluno, do fato acima, fiquei mais atento e notei que Al Gore, para ilustrar a redução do gelo, exibe pares de fotos de geleiras com dezenas de anos de intervalo entre elas, em todas fazendo constar o ano e nunca o mês de cada foto (páginas 46 a 57). A questão ficaria por aí até que, às pp. 103 a 113, vejo fotos de furacões, todas com ano e mês, o que me autoriza a pensar que talvez o esquecimento do mês no primeiro grupo pode não ter sido mera distração.

     O aquecimento global, em que acredito como possibilidade concreta, deve ser levado a sério, do contrário poderá ser desmoralizado, ou levar a medidas desnecessárias ou opostas às necessárias.


Belo Horizonte, 07/01/2008

Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo.

O Tempo; Opinião; p. A10; 19/01/08

Floresta de leis – deserto de idéias

Edézio Teixeira de Carvalho
Cadeira nº 44

     Há pouco mais de dois anos fui salvo pelo providencial e competente bisturi de dois ases da cirurgia, mas antes de chegar a eles, passei por atenções igualmente competentes de outros médicos, demonstrando a eficaz integração horizontal e vertical entre eles. Há muitos anos comparo o campo privilegiado de ação do médico ? o corpo humano?, com o do geólogo ? a Terra, representada em sua totalidade pelo Sistema Geológico global. Tenho dito que o primeiro é infinitamente complexo, mas homogêneo, a ponto de qualquer de nós ser idêntico a Ramsés, que viveu há quase 35 séculos, enquanto o segundo é certamente menos complexo, mas muito heterogêneo. Então o corpo humano, modelo antropomórfico do Sistema Geológico, seria em tese mais previsível, aí ocorrendo o principal desvio da função de modelo, porque o Sistema Geológico seria menos previsível e portanto mais refratário às previsões que possam ser feitas para ordenar intervenções sobre ele. De modo indiscutivelmente previdente e responsável, os médicos, operadores principais do corpo humano, resistem intransigentemente a tentativas de criação de leis que limitem o acesso a esse corpo para desvendar seus segredos mais íntimos e para operar sobre ele quando precisem corrigir seus defeitos. Então, por duas vezes, beneficiei-me diretamente de conhecimentos que só foi possível desenvolver porque houve liberdade para tal.
     O que tendem a fazer muitos geólogos e outros profissionais em seus misteres próprios quando são postos diante de leis como o nosso Código Florestal? Muitos, não digo todos, tendem a depor a principal ferramenta de trabalho que adquiriram, à custa do povo, e que, depois da aquisição, juraram usar todos os dias da sua vida ? a sua capacidade de compreender a Terra e suas partes (anatomia), e seus particulares comportamentos, a fisiologia da Terra. Assim a nação perde praticamente toda a massa cerebral preparada para ser útil a ela e ao seu povo. Por quê? Porque a lei, não obstante bem propositada, muitas vezes pode não estar bem escrita ou até justificada, invadindo o campo da especulação científica e eliminando da face da terra o experimentalismo essencial ao próprio corpo da Terra e ao seu modelo!
     Cito exemplos dentre milhares possíveis. Por que será que o Japão consegue manter mais de 70% de seu território com cobertura arbórea e o Brasil no Sudeste, onde tem o dobro do território japonês e pouco mais da metade de sua população, não passa de 10%? Em paralelo, por que será que o Japão tem como programa de governo, quase uma mania nacional, a construção de sabodams, para controlar as águas torrenciais, enquanto no Brasil são, em regra geral, proibidos os equivalentes delas? Não-geólogos, e até geólogos, costumam dizer para mim que essas proibições podem ser suspensas no caso em que haja relevante interesse social. Assim eu começo a duvidar da inteligência do Brasil. Por que é que uma intervenção sobre a Terra, boa por natureza para ela, e isto quem diz sou eu, com mais de 50 anos de reflexão respeitosa sobre ela, não um curioso de última hora, deixa de ter relevante interesse social só por ser feita sem esse carimbo especial? Por que o Japão tem idéias que implanta, e o Brasil, que talvez as tenha, tem agido como se não as tivesse?
     As leis podem ser muito boas para ordenar a vida do Homem. Para tanto, entretanto, têm de ser isentas de arrogância, desta forma limitando-se sabiamente como o faz a sábia lei do trânsito, que transfere ao agente do trânsito a autoridade automaticamente concedida ao verde-amarelo-vermelho do semáforo, ou aquela ainda tão bem vinda ao sadio senso comum do povo: “se persistirem os sintomas, procure o médico”. Isto é muito diferente, (não é, leitor?) daquele cruzar de braços de órgãos ambientais, que nada fazem diante da destruição do território nacional por agricultura e pecuária praticadas a inimagináveis 100% de declividade, só porque a lei não o proíbe, enquanto correm atrás de maritacas real ou supostamente cativas.
     Quem defende a excessiva rigidez da lei, que tudo dita sobre o heterogêneo (na suposição de homogêneo), desistiu de vez de educar.

     PS: Depois da dar por fechado o artigo, lembro-me de que pensava nos provavelmente mais de dois milhões de mortos neste nascente século, na área do risco geológico, que, inobstante a floresta de leis, mata por atacado, enquanto, graças à liberdade dos profissionais da saúde, uma doença, a gripe aviária, para a qual se chegou a prever uma pandemia, não fez mais que uma centena de vítimas.

Assalto neocolonialista

Edézio Teixeira de Carvalho
Cadeira nº 44

Geocentelha 236
     Recebo notícia de conferência proferida em Estocolmo na Semana Mundial da Água (World Water Week) sobre o risco que correria a humanidade de ter as reservas de água reduzidas pela ampliação da produção de biocombustíveis. Mais uma vez a cantilena de estatísticas estarrecedoras: Tanta água consumimos hoje; chegaremos a tanto amanhã; não haverá como resolver a questão se persistirmos em nossas práticas destruindo a natureza. A palestra contém óbvia proposta de venda de tecnologias adequadas (aos bárbaros, é claro). Obviamente o alvo principal da mensagem é o Brasil, cujo governo toma decisão histórica para a humanidade de      Oferecer alternativa geologicamente sustentável ao combustível fóssil.
Reconheço essa ação do governo federal, coincidente com recomendação minha no Capítulo “A revolução geológica” do livro Geologia Urbana para todos – Uma visão de Belo Horizonte”, escrito em 1999, em texto que termina por estas palavras: “... As florestas comerciais poderão, além de também contribuir para o controle da erosão, dar suporte a alternativas à cana-de-açúcar, complementando êxitos indiscutíveis do Proálcool e dando melhor conformação ambiental e social ao uso da biomassa para a produção de energia.”
     O uso do argumento ambiental com discutível fundamentação técnica não é novidade na obstrução a iniciativas de empreendimentos estruturantes de nosso território, como hidrovias principalmente. Não é também novidade a procedência geralmente européia desse alarido. Não vi movimento ambientalista internacional mover uma palha contra a Transposição de águas do São Francisco, porque esta obviamente nos desestrutura e não ameaça a Europa.
     Dou comprovações nítidas de como os europeus tratam a água em termos ambientais: São os maiores canalizadores do mundo, sofrendo, por isto mesmo, inundações freqüentes determinadas mais por exacerbação da drenagem que por eventos naturais e são os maiores subsidiadores da agricultura, da agricultura, repito, a atividade obviamente maior consumidora de água, feita na tradição européia.
     Demonstrei que é possível urbanizar aumentando as reservas de água, em Contagem e Nova Lima; demonstrei como aumentar a água no meio rural produzindo madeira; a mineração tecnicamente correta demonstrou como aumentar a regularidade das disponibilidades de água produzindo minérios; é possível construir rodovias e produzir biocombustíveis aumentando a disponibilidade de água. Naturalmente os europeus podem não saber como, porque vem de Europa ainda todo o descontrole da água no mundo ocidental.

Edézio Teixeira de Carvalho, engenheiro geólogo, mestre em Geologia de Engenharia e Consultor em Geologia Urbana e Ambiental. Ocupa a cadeira nº 44 na ACLCL. Artigo publicado em Jornal O Tempo; Opinião; p. A10; 17/08/2007 (publicado com pequenas reduções)

 Traficantes e usuários - uma relação paradoxal

Carlos Reinaldo de Souza
Cadeira nº 85

     A recente prisão do traficante Juan Carlos Ramirez Abadia trouxe à tona a relação promíscua e, ao mesmo tempo, paradoxal entre os traficantes e os usuários de drogas. Enquanto os produtores e os traficantes enriquecem de forma exponencial, os dependentes de drogas ilícitas se transformam em eternos financiadores de fortunas, também ilícitas.
     No ciclo das drogas, o triângulo formado pelo produtor, traficante e usuário é ilegal, injusto e imoral. Ilegal, porque se trata de um produto proibido, o produtor sabe disso, mas insiste em afrontar a lei; injusto, porque retira tudo de quem não tem quase nada, em favor de quem tudo possui; e imoral, porque afronta a sociedade como um todo, assalta lares, traz inquietação e desestrutura as famílias, hoje tão fragilizadas.
     Como ficam as autoridades, diante deste triângulo perverso? Aparentemente inertes, como se estivessem anestesiadas ou impotentes ! Muito se fala deste problema e a mídia faz a sua parte, noticiando tudo; as famílias, frágeis e aturdidas, se comportam como expectadoras de um filme de terror, cujo epílogo trágico parece distante, mas acontece a todo momento. Ora é um amigo que se curva diante do poderia deste exército avassalador; ora é um vizinho que sofre o revés da invasão das drogas; ora é um parente que tomba, vencido pela avalanche inexorável deste inimigo astuto e sagaz.
     No meio de tantas incertezas, inseguranças e inquietações, emergem as figuras esdrúxulas, desprezíveis e asquerosas dos produtores e traficantes. Eles aparecem como senhores do Universo, poderosos, cheios de glória, colhendo vitórias através da sua maior arma – o poder econômico. Com o vil metal, compram tudo e a todos; os pagamentos são feitos em moeda corrente, dinheiro vivo, em dólares, ienes ou cruzeiros. Como cavaleiros do Apocalipse, surgem da lama, mas se engalanam com o ouro aquinhoado através da desgraça alheia, portanto manchado com o sangue de inocentes. O grande paradoxo é a enorme fortuna que amealham de forma vil, em curto tempo, às custas do prazer fugaz, seguido do sofrimento, da miséria e até da morte dos usuários.
     Não pode a sociedade ficar a mercê deste triângulo diabólico. Se até hoje falharam todas as medidas visando a extirpar os produtores e traficantes, resta-nos eliminar o vértice dos usuários, constituído pelos nossos filhos, netos, irmãos, amigos, parentes e vizinhos. Cada vez que vejo um jovem cheio de vida tombar diante das drogas, mais me conscientizo que este é o elo mais frágil deste corrente. Mas, ao mesmo tempo, é o único que está ao alcance das nossas mãos e da nossa capacidade de reagir. Talvez seja a única e decisiva possibilidade que temos de romper esse ciclo e o raciocínio é lógico e objetivo: sem usuário, não haverá espaço para o produtor e nem para o traficante !  Onde e como iniciar esta grande revolução?
     - Em cada lar, em cada escola, em cada igreja, em cada clube, em toda e qualquer instituição onde estiver um ser humano disposto a combater esta grave pandemia social. Urge que sejamos rápidos, competentes e estejamos dispostos a realizar a maior cruzada do Homem, desde a sua criação. Não será uma batalha fácil; pelo contrário, será difícil, longa, cheia de incertezas e desalentos. Mas, urge que se inicie já, utilizando todas as forças do bem a serviço da humanidade, sem esmorecimento e sem tréguas.
 
Carlos Reinaldo de Souza é pós-graduado em Bioética pela PUC-Minas e diretor científico da ACLCL. 

Amo-te muito

Paulo D. Bellavinha
Cadeira nº 99

     Conselheiro Lafaiete foi, ao longo do Século XX, uma cidade privilegiada pela imensa quantidade de forasteiros notáveis que aqui se aportaram.
Em 1936, chegava à Lafaiete o jovem engenheiro Ary de Mello Belisário, oriundo de Nova Lima, onde trabalhou na Sant John Del'Rey Mining.
     Natural de Pedro Leopoldo, conterrâneo do não menos notável professor Astor Vianna, estudou em Belo Horizonte e Ouro Preto, onde se formou na Escola de Minas em Engenharia Civil e Metalúrgica. Neste mesmo ano de 1936, meu irmão Pedro Bellavinha, com 16 anos, ingressava, como o Dr. Ary, na A. Thum e Cia. Ltda., empresa alemã que explorava a mineração de ferro em nossa região.
     Ainda naquele ano, casou-se na igreja de Santa Ana, em Belo Horizonte, com a linda ouropretana Maria José Teixeira de Lima.
     Católicos fervorosos, trataram logo de povoar seu lar com uma linda e inteligente prole: Ana Maria, Cláudio, Marcos, Paulo, Alberto, Mônica, Maria da Glória, Maria Virgínia, Pedro, José e Laura foram a alegria da linda mansão denominada por eles como a “residência encantada”, como gostam de dizer até hoje e que é, atualmente, sede do 31º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais.
     Em 1939, A. Thum promoveu Dr. Ary a Chefe Geral, ficando responsável pelas minas de Lafaiete, Água Preta, Casa de Pedra, Cocuruto e São Gonçalo do Brandão.
Com o advento da 2ª Guerra Mundial, da qual participou o Brasil, o governo decidiu nacionalizar todas as empresas de origem alemãs e italianas que operavam no país.
Com a inauguração de C. S. N. – Cia Siderúrgica Nacional - em Volta Redonda (doada ao Brasil pelos Estados Unidos da América) e a nacionalização de diversas outras minerações, Dr. Ary passou a chefiar a empresa em todo o estado.
     Enquanto isso, Dona Maria José presidia a organização das Pioneiras Sociais, praticando a filantropia junto às camadas mais necessitadas da comunidade, sem se esquecer, todavia, da educação de seus filhos.
     Dr. Ary, alcunhado pelos próprios funcionários como “o amigo dos operários”, foi um dos fundadores do Lafaiete Sider Clube, sendo seu presidente honorário. Foi também sócio ativo do Lions Clube de Lafaiete.
     Em 1961, foi convidado para dar a aula inaugural do ano letivo da Escola Federal de Minas de Ouro Preto.
     Foi condecorado com a Medalha de Mérito Industrial pela Federação das Indústrias de nosso estado.
     Em homenagens póstumas, seu nome foi dado a uma escola municipal de Congonhas e a uma rua do Bairro Siderúrgico de Lafaiete.
Concedido pela Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafayette, seus filhos receberam o Diploma da Ordem dos Construtores do Progresso de Conselheiro Lafaiete..
     Ainda em homenagem póstuma, através da lei nº 12.394, de autoria do Deputado Dr. Arnaldo Francisco Penna, a rodovia que liga Lafaiete a Ouro Branco recebeu a denominação de Engº. Ary de Mello Belisário.
     Em 14 de julho passado, seus familiares realizaram, em comemoração ao 1º centenário do nascimento de Dr. Ary e 95 anos, também de nascimento, de Dona Maria José, uma missa rezada no Mosteiro Nossa Senhora das Graças e uma recepção no Espaço Guignard de Belo Horizonte, que denominaram “Amo-te Muito”, ocasião em que compareceram centenas de amigos e antigos companheiros de trabalho de Lafaiete.
     Foi por ocasião dessa recepção que Pedrinho, filho de Dr. Ary, lembrou-me da crônica que publiquei há alguns anos em homenagem ao seu pai e que, em determinado trecho, relato um fato acontecido por ocasião do Congresso Mundial de Geologia realizado em 1956 na Cidade do México, quando representou o Brasil, e que me permito reproduzi-lo: Dr. Ary, com a alegria e a verve que Deus lhe deu, contou-me que em um momento de descontração, em uma recepção, um engenheiro mexicano apreciador da música e de cantores brasileiros, indagou-lhe o nome do cantor de que mais gostava.
     Dr. Ary, sempre acompanhado de Dona Maria José, apesar de freqüentar os bailes de nossos clubes, não tinha tempo para ouvir rádio e conhecer nossos cantores.
Quem ele via e ouvia sempre cantar em nossas festas era o ótimo funcionário da C. S. N. e dublê de cantor e de declamador Jair Junqueira.
     Para não deixar o mexicano sem resposta, respondeu em inteligível “portunhol” :
“EL CANTANTE BRASILENHO QUE MAIS ME GUSTA, SE LHAMA RAIR RUNQUERA”.
     Dr. Ary e meu irmão Pedrinho, que haviam ingressado na A. Thum em 1936, por uma dessas ironias do destino, faleceram em 1969.
     Uma coincidência que sempre nos emocionou.

Paulo D. Bellavinha é presidente do Conselho Superior da ACLCL