
INTEGRAÇÃO
DE BACIAS?
Geocentelha
248
A
leitura mais precoce do homem sobre a terra é a da bacia hidrográfica,
porque este conceito geográfico tem significado físico
evidente: Do seu perímetro formado por cristas reconhecíveis
ou por chapadas em que o divisor de águas é tenuemente
marcado na paisagem, escoam águas para eixos topograficamente
baixos, que convergem, formando rede hierarquizada de córregos,
ribeirões, rios locais e grandes rios que dão nomes às
bacias.
A
importância do conceito é patente. Por exemplo, diversamente
da poluição atmosférica, a poluição
hídrica gerada em Belo Horizonte pode atingir Petrolina a mais
de 2.000 km, mas não Nova Lima aqui pertinho.
As sociedades humanas aproveitam possibilidades proporcionadas por bacias
hidrográficas no suprimento de água para beber e para
rega, cuja forma de adução mais econômica é
por gravidade. Usam-nas também para geração de
eletricidade, navegação e para aproveitar seu produto
mais natural, os peixes.
O
bom uso da terra no sentido mais amplo dado pela lógica da gestão
procede da leitura mais completa possível de configurações
e possibilidades, que darão caminhos de menor resistência
ao desenvolvimento ambientalmente compatível.
No
afã de otimizar o aproveitamento de dado uso, governos mal orientados
prejudicam outros usos possíveis, desintegrando o território.
Há muitas formas de fazê-lo a partir de leituras mal feitas
e de intervenções mal concebidas. Barragens de hidrelétricas
podem desintegrar bacias hidrográficas por bloqueio à
navegação, à migração dos peixes,
ao transporte de sedimentos. Em muitos casos esse grande mal-feito pode
ser neutralizado pela construção de eclusas, escadas,
elevadores, lavra de areia por dragagem ou por sifonamento.
A
pior das desintegrações é a resultante de diversões
fluviais definitivas, como a transposição do São
Francisco. O artificialismo dela é evidente, por ferir de morte
a lógica mais elementar, quando sustenta o argumento de que outorgas
não confirmadas em captações reais poderão
ser anuladas, gerando-se daí excedente de vazão outorgável
que poderia ser transferido para outra bacia, não para pretendentes
da mesma bacia. Aí uma explicação possível
para os dois níveis de transferência, o básico,
de 26 m3/s, e o ampliado, ocasional, de 127 m3/s. Sendo inacreditável
que permaneça ociosa por tempos indeterminados uma capacidade
de 101 m3/s, haverá pressão para fazê-la permanente
em detrimento dos cedentes. A ação do Governo Federal,
mandando para a lixeira o indiscutível valor das potencialidades
territoriais, poderá prosperar, com a passividade dos mineiros
e de seus governantes.
Belo Horizonte, 07 de ABRIL de 2008.
Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo, Membro
da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete
O Tempo; Opinião, p. 23; 11/04/2008
Mais
uma vez, é Páscoa
Ângela Togeiro
Membro
efetivo da ACLCL
Páscoa
me leva ao passado.
À
morte de Jesus, o Cristo. À multidão que assiste impassível.
Alguns, presos nos seus medos, no medo da força policial, no
medo de serem discriminados se reagirem. Medo de se perder o pouco ou
até o nada que se tem – a liberdade do corpo. A liberdade
do espírito. Medos indevassáveis... Outros, presos na
euforia patológica de ver sangue escorrer. No prazer de ver a
morte chegar e ceifar a vida...
Páscoa
me traz de volta ao presente. Às mortes dos Cristos modernos.
Situações semelhantes. À multidão que assiste
impassível. Pouco mudou. Mas a Páscoa está aí
para nos fazer repensar. Mudar ou aceitar ficarmos presos nos nossos
medos, nas nossas patologias. Mudam-se os nomes, adaptam-se situações
– novo modus operandi, ao modus vivendi da ocasião... Hoje
temos miséria globalizada, crianças morrendo de fome,
governo sustentando bancos, mantendo a taxa de juros para privilegiar
o capital, a taxa de inflação fingidamente baixa, gerando
mais e mais desemprego. E tudo, tudo (hipoteticamente) feito em nome
da Família, à custa da Família. Pois ela é
a única que perde. Sim, a Família, a cellula mater, embrião
de qualquer sociedade. Seria tão diferente nosso tempo do tempo
de Jesus? Não, só se revezam formas de organizar a supremacia
sobre o próximo. Seu símbolo mágico, o Ovo de Páscoa,
se parte e se reparte para o renascer da alma, da plenitude da vida,
da união verdadeira entre os homens, do deixar de estar apenas
lado a lado, para a busca e prática da Verdade. Pena que nem
todos se entregam à simplicidade de romper a própria casca.
Pena. Pois, presos nelas, somos ilhas, ilhas humanas, não chegaremos
a lugar nenhum, a não ser a este renascer contínuo e improfícuo,
doloroso e de falsa cegueira que vivemos geração a geração.
Pelos
séculos afora, todo ano, a Páscoa vem despertar a gente...
Feliz Páscoa.
A
floresta amazônica e as outras 1
Geocentelha
245
Nem sempre concordo com hipérboles do nosso Presidente, iniciadas
com o “nunca na história deste país”, mas
dia desses presenciei afirmação sensata e peremptória
dele como a pedir-nos que acordemos, quando dizia que competia também
aos europeus replantarem florestas por eles derrubadas. Lembram-se do
celeiro romano do norte da África, implantado depois das guerras
púnicas, da mitológica floresta de Sherwood, de uma Irlanda
arbórea e não daquele campo de golfe aparadinho; em zona
de influência próxima, da terra “onde corriam leite
e mel”?
Considero
o aquecimento global uma possibilidade geológica concreta, depois
de ter lido “The beginning of the technogene”, de Ter-Stepanian
(IAEG Bull 38, 1988). Depois de discorrer sobre o crescente uso da energia
num painel muito mais amplo do que essa estreitíssima raia do
efeito estufa, dada como a última palavra em profecias científicas,
ele termina de modo pessimista prevendo a morte termal do planeta.
O
aproveitamento geopolítico global, com fins neocolonialistas,
torna-se cada dia mais óbvio: Ao Brasil, aos países equatoriais
africanos, aos do sudeste da Ásia, a responsabilidade pela manutenção
das florestas e da biodiversidade que sustentam. Acentuam a relevância
da floresta amazônica e a especial responsabilidade do Brasil.
Acho
que devemos manter extensões mínimas dos biomas naturais,
mas em perspectiva de nossos interesses. Desde as guerras púnicas,
os europeus nos devem pelo menos uns 20.000.000 de quilômetros
quadrados de florestas pré-antrópicas. Foram esses que
devolveram à atmosfera bilhões de toneladas de CO2 que
estavam fixados em condição de equilíbrio dinâmico.
Por outro lado, se a floresta amazônica, 1 sexto daquilo tudo,
está de pé (ainda), o desequilíbrio ocorreu a despeito
dela pela queima de carvão, petróleo, gás e criação
de gado.
Que
se cometam erros de avaliação admite-se, mas forçar
comprovações como atribuir fenômenos independentes
do aquecimento global como provas dele é inaceitável porque
isto levará a humanidade a cuidar de problemas imaginários.
Por outro lado a mídia mundial, adestrada como um cão
pastor, nunca deixa de completar uma reportagem sobre calor e incêndios
sem atribuir o fato ao aquecimento global, mas se esquece de dar destaque
mínimo ao resfriamento momentâneo do ano passado, ao atual
inverno infernal da China e à nevasca do ano passado em Buenos
Aires, por exemplo. Ouçamos então o Presidente, que não
é mineiro, mas desconfia bem.
Belo
Horizonte, 17 de fevereiro de 2008
Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo
O Tempo;
Opinião; p. A10; 22/02/2008
INCLUÍDO
NOS EXCLUIDOS
Geocentelha
244
Entre
governo federal, estadual e municipais sou loteado por órgãos
diversos, estatais, e por entidades privadas. A lista de meus proprietários
é grande e somando porcentagens, restaram para mim e família
uns 6%. Fiquei pessoalmente com 3%. Pensando bem, nem com isto, porque
me sinto agora excluído de decisões ? que afetam minha
vida ? que já foram minhas.
George
Orwell via o totalitarismo em “1984”, que li em 1970. Em
“Nos passos de Hannah Arendt” (Laure Adler, 2005), tomo
conhecimento de preocupações dela no pós-guerra
com um futuro que poderia ser marcado por totalitarismos em gestação
ou previsíveis. Em 1999 atrevo-me a incluir no livro “Geologia
urbana para todos – Uma visão de Belo Horizonte”
o capítulo “A reabilitação do Homem”
por considerá-lo muito diminuído em suas possibilidades
de realização plena de anseios naturais, ele que, diferentemente
dos demais seres animados, e dos inanimados, é componente exclusivo
de uma geosfera, a Noosfera, de cuja ação depende o futuro
da humanidade, porque dela depende a manutenção de uma
natureza capaz de assegurá-lo.
Lei
natural diz-me que o êxito da Noosfera nessa ação
decisiva deve contar com todo o potencial de ação desenvolvido
por meio de educação formal e familiar, sob a égide
do livre arbítrio das pessoas bem intencionadas, de que nenhuma
estrutura estamental pode duvidar. Mas o que ocorre? Não tenho
a hipótese de poder exercer o direito de morar numa cidade brasileira
acima da cota 1800 porque o Código Florestal não permitiria,
não havendo qualquer explicação para a absurda
proibição. Não poderei ensinar, antes dos 16 anos,
a meus futuros netos o valor do trabalho, como meus pais me ensinaram
precocemente, porque poderei ser confundido com explorador do trabalho
infantil. Eu nada posso, porque tudo é crime, para gáudio
de criminosos verdadeiros, ambientais ou sociais, que assim dividem
comigo o olho já escasso e mal preparado do poder de polícia
em todas as áreas atingidas.
Estou
então às portas da imobilização e da inutilização
total. Eu, que já cortei campos de atividade profissional invadidos
totalitariamente pela Lei, tomando-me o sagrado dever de pensar, objeto
de juramento na graduação, sofro porque sei que não
sei qual dos desperdícios rituais, determinados pela grande Invasora,
atinge mais fortemente a humanidade, se o de gigantescas massas animais
não consumidas por proibições mal explicadas ou
de capacidades noosféricas absolutamente indispensáveis
totalmente dispensadas.
Edézio Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo
O Tempo; Opinião; p. B6; 8/02/2008
O
BAFO DO MAUNA LOA1
Geocentelha
242
O
Mauna Loa é vulcão ativo do Havaí, de condição
geológica singular, porque construiu o cone emerso desde o assoalho
do Pacífico. As ilhas do Havaí dispõem-se em linha
reta na direção noroeste. As mais a noroeste são
cones inativos, enquanto as maiores, a sudeste, têm vulcões
ativos entre os quais o Mauna Loa. Enquanto as ilhas se formavam por
erupções sobre ponto quente fixo sob a crosta oceânica,
esta deslocava-se como esteira rolante para noroeste; afastando-se do
ponto quente, as ilhas iam-se esfriando e seus vulcões extinguindo-se.
O leitor pode imaginar-se deslocando um tabuleiro comprido raso com
gordura talhada ao fundo sobre uma vela fixa. Em cada parada do tabuleiro,
ele observará e formação de um “vulcãozinho”
de gordura derretida. A cada deslocamento do tabuleiro o vulcãozinho
anterior solidifica-se e um novo surge ao lado. Assim formou-se o Havaí.
Nos
vulcões ativos gases são expelidos para a atmosfera, sendo
mais comuns o vapor d’água, CO2 (gás carbônico)
e SO2.
No
livro de Al Gore, “Uma verdade inconveniente”, edição
RODALE, N. Y., 2006, vemos o autor, prêmio Nobel da Paz, afirmar,
página 38, que seu professor Roger Revelle e Charles David Keeling
implantaram em 1958 um sistema de medição de CO2 no cume
do Mauna Loa, segundo ele a escolha do local isolado tendo obedecido
à conveniência de evitar contaminação das
medições por CO2 industrial.
Sendo
o Mauna Loa fonte natural de CO2 primário, e sua atividade francamente
pulsativa, a escolha deveria ter recaído sobre a ilha mais a
noroeste, inativa. Alertado por colega, antigo aluno, do fato acima,
fiquei mais atento e notei que Al Gore, para ilustrar a redução
do gelo, exibe pares de fotos de geleiras com dezenas de anos de intervalo
entre elas, em todas fazendo constar o ano e nunca o mês de cada
foto (páginas 46 a 57). A questão ficaria por aí
até que, às pp. 103 a 113, vejo fotos de furacões,
todas com ano e mês, o que me autoriza a pensar que talvez o esquecimento
do mês no primeiro grupo pode não ter sido mera distração.
O
aquecimento global, em que acredito como possibilidade concreta, deve
ser levado a sério, do contrário poderá ser desmoralizado,
ou levar a medidas desnecessárias ou opostas às necessárias.
Belo Horizonte, 07/01/2008
Edézio
Teixeira de Carvalho
Engenheiro Geólogo.
O Tempo; Opinião; p. A10; 19/01/08
Floresta
de leis – deserto de idéias
Edézio
Teixeira de Carvalho
Cadeira nº 44
Há
pouco mais de dois anos fui salvo pelo providencial e competente bisturi
de dois ases da cirurgia, mas antes de chegar a eles, passei por atenções
igualmente competentes de outros médicos, demonstrando a eficaz
integração horizontal e vertical entre eles. Há
muitos anos comparo o campo privilegiado de ação do médico
? o corpo humano?, com o do geólogo ? a Terra, representada em
sua totalidade pelo Sistema Geológico global. Tenho dito que
o primeiro é infinitamente complexo, mas homogêneo, a ponto
de qualquer de nós ser idêntico a Ramsés, que viveu
há quase 35 séculos, enquanto o segundo é certamente
menos complexo, mas muito heterogêneo. Então o corpo humano,
modelo antropomórfico do Sistema Geológico, seria em tese
mais previsível, aí ocorrendo o principal desvio da função
de modelo, porque o Sistema Geológico seria menos previsível
e portanto mais refratário às previsões que possam
ser feitas para ordenar intervenções sobre ele. De modo
indiscutivelmente previdente e responsável, os médicos,
operadores principais do corpo humano, resistem intransigentemente a
tentativas de criação de leis que limitem o acesso a esse
corpo para desvendar seus segredos mais íntimos e para operar
sobre ele quando precisem corrigir seus defeitos. Então, por
duas vezes, beneficiei-me diretamente de conhecimentos que só
foi possível desenvolver porque houve liberdade para tal.
O
que tendem a fazer muitos geólogos e outros profissionais em
seus misteres próprios quando são postos diante de leis
como o nosso Código Florestal? Muitos, não digo todos,
tendem a depor a principal ferramenta de trabalho que adquiriram, à
custa do povo, e que, depois da aquisição, juraram usar
todos os dias da sua vida ? a sua capacidade de compreender a Terra
e suas partes (anatomia), e seus particulares comportamentos, a fisiologia
da Terra. Assim a nação perde praticamente toda a massa
cerebral preparada para ser útil a ela e ao seu povo. Por quê?
Porque a lei, não obstante bem propositada, muitas vezes pode
não estar bem escrita ou até justificada, invadindo o
campo da especulação científica e eliminando da
face da terra o experimentalismo essencial ao próprio corpo da
Terra e ao seu modelo!
Cito
exemplos dentre milhares possíveis. Por que será que o
Japão consegue manter mais de 70% de seu território com
cobertura arbórea e o Brasil no Sudeste, onde tem o dobro do
território japonês e pouco mais da metade de sua população,
não passa de 10%? Em paralelo, por que será que o Japão
tem como programa de governo, quase uma mania nacional, a construção
de sabodams, para controlar as águas torrenciais, enquanto no
Brasil são, em regra geral, proibidos os equivalentes delas?
Não-geólogos, e até geólogos, costumam dizer
para mim que essas proibições podem ser suspensas no caso
em que haja relevante interesse social. Assim eu começo a duvidar
da inteligência do Brasil. Por que é que uma intervenção
sobre a Terra, boa por natureza para ela, e isto quem diz sou eu, com
mais de 50 anos de reflexão respeitosa sobre ela, não
um curioso de última hora, deixa de ter relevante interesse social
só por ser feita sem esse carimbo especial? Por que o Japão
tem idéias que implanta, e o Brasil, que talvez as tenha, tem
agido como se não as tivesse?
As
leis podem ser muito boas para ordenar a vida do Homem. Para tanto,
entretanto, têm de ser isentas de arrogância, desta forma
limitando-se sabiamente como o faz a sábia lei do trânsito,
que transfere ao agente do trânsito a autoridade automaticamente
concedida ao verde-amarelo-vermelho do semáforo, ou aquela ainda
tão bem vinda ao sadio senso comum do povo: “se persistirem
os sintomas, procure o médico”. Isto é muito diferente,
(não é, leitor?) daquele cruzar de braços de órgãos
ambientais, que nada fazem diante da destruição do território
nacional por agricultura e pecuária praticadas a inimagináveis
100% de declividade, só porque a lei não o proíbe,
enquanto correm atrás de maritacas real ou supostamente cativas.
Quem
defende a excessiva rigidez da lei, que tudo dita sobre o heterogêneo
(na suposição de homogêneo), desistiu de vez de
educar.
PS:
Depois da dar por fechado o artigo, lembro-me de que pensava nos provavelmente
mais de dois milhões de mortos neste nascente século,
na área do risco geológico, que, inobstante a floresta
de leis, mata por atacado, enquanto, graças à liberdade
dos profissionais da saúde, uma doença, a gripe aviária,
para a qual se chegou a prever uma pandemia, não fez mais que
uma centena de vítimas.
Assalto
neocolonialista
Edézio
Teixeira de Carvalho
Cadeira nº 44
Geocentelha
236
Recebo
notícia de conferência proferida em Estocolmo na Semana
Mundial da Água (World Water Week) sobre o risco que correria
a humanidade de ter as reservas de água reduzidas pela ampliação
da produção de biocombustíveis. Mais uma vez a
cantilena de estatísticas estarrecedoras: Tanta água consumimos
hoje; chegaremos a tanto amanhã; não haverá como
resolver a questão se persistirmos em nossas práticas
destruindo a natureza. A palestra contém óbvia proposta
de venda de tecnologias adequadas (aos bárbaros, é claro).
Obviamente o alvo principal da mensagem é o Brasil, cujo governo
toma decisão histórica para a humanidade de Oferecer
alternativa geologicamente sustentável ao combustível
fóssil.
Reconheço essa ação do governo federal, coincidente
com recomendação minha no Capítulo “A revolução
geológica” do livro Geologia Urbana para todos –
Uma visão de Belo Horizonte”, escrito em 1999, em texto
que termina por estas palavras: “... As florestas comerciais poderão,
além de também contribuir para o controle da erosão,
dar suporte a alternativas à cana-de-açúcar, complementando
êxitos indiscutíveis do Proálcool e dando melhor
conformação ambiental e social ao uso da biomassa para
a produção de energia.”
O
uso do argumento ambiental com discutível fundamentação
técnica não é novidade na obstrução
a iniciativas de empreendimentos estruturantes de nosso território,
como hidrovias principalmente. Não é também novidade
a procedência geralmente européia desse alarido. Não
vi movimento ambientalista internacional mover uma palha contra a Transposição
de águas do São Francisco, porque esta obviamente nos
desestrutura e não ameaça a Europa.
Dou
comprovações nítidas de como os europeus tratam
a água em termos ambientais: São os maiores canalizadores
do mundo, sofrendo, por isto mesmo, inundações freqüentes
determinadas mais por exacerbação da drenagem que por
eventos naturais e são os maiores subsidiadores da agricultura,
da agricultura, repito, a atividade obviamente maior consumidora de
água, feita na tradição européia.
Demonstrei
que é possível urbanizar aumentando as reservas de água,
em Contagem e Nova Lima; demonstrei como aumentar a água no meio
rural produzindo madeira; a mineração tecnicamente correta
demonstrou como aumentar a regularidade das disponibilidades de água
produzindo minérios; é possível construir rodovias
e produzir biocombustíveis aumentando a disponibilidade de água.
Naturalmente os europeus podem não saber como, porque vem de
Europa ainda todo o descontrole da água no mundo ocidental.
Edézio
Teixeira de Carvalho, engenheiro geólogo, mestre em Geologia
de Engenharia e Consultor em Geologia Urbana e Ambiental. Ocupa a cadeira
nº 44 na ACLCL. Artigo publicado em Jornal O Tempo; Opinião;
p. A10; 17/08/2007 (publicado com pequenas reduções)
Traficantes
e usuários - uma relação paradoxal
Carlos
Reinaldo de Souza
Cadeira nº 85
A
recente prisão do traficante Juan Carlos Ramirez Abadia trouxe
à tona a relação promíscua e, ao mesmo tempo,
paradoxal entre os traficantes e os usuários de drogas. Enquanto
os produtores e os traficantes enriquecem de forma exponencial, os dependentes
de drogas ilícitas se transformam em eternos financiadores de
fortunas, também ilícitas.
No
ciclo das drogas, o triângulo formado pelo produtor, traficante
e usuário é ilegal, injusto e imoral. Ilegal, porque se
trata de um produto proibido, o produtor sabe disso, mas insiste em
afrontar a lei; injusto, porque retira tudo de quem não tem quase
nada, em favor de quem tudo possui; e imoral, porque afronta a sociedade
como um todo, assalta lares, traz inquietação e desestrutura
as famílias, hoje tão fragilizadas.
Como
ficam as autoridades, diante deste triângulo perverso? Aparentemente
inertes, como se estivessem anestesiadas ou impotentes ! Muito se fala
deste problema e a mídia faz a sua parte, noticiando tudo; as
famílias, frágeis e aturdidas, se comportam como expectadoras
de um filme de terror, cujo epílogo trágico parece distante,
mas acontece a todo momento. Ora é um amigo que se curva diante
do poderia deste exército avassalador; ora é um vizinho
que sofre o revés da invasão das drogas; ora é
um parente que tomba, vencido pela avalanche inexorável deste
inimigo astuto e sagaz.
No
meio de tantas incertezas, inseguranças e inquietações,
emergem as figuras esdrúxulas, desprezíveis e asquerosas
dos produtores e traficantes. Eles aparecem como senhores do Universo,
poderosos, cheios de glória, colhendo vitórias através
da sua maior arma – o poder econômico. Com o vil metal,
compram tudo e a todos; os pagamentos são feitos em moeda corrente,
dinheiro vivo, em dólares, ienes ou cruzeiros. Como cavaleiros
do Apocalipse, surgem da lama, mas se engalanam com o ouro aquinhoado
através da desgraça alheia, portanto manchado com o sangue
de inocentes. O grande paradoxo é a enorme fortuna que amealham
de forma vil, em curto tempo, às custas do prazer fugaz, seguido
do sofrimento, da miséria e até da morte dos usuários.
Não
pode a sociedade ficar a mercê deste triângulo diabólico.
Se até hoje falharam todas as medidas visando a extirpar os produtores
e traficantes, resta-nos eliminar o vértice dos usuários,
constituído pelos nossos filhos, netos, irmãos, amigos,
parentes e vizinhos. Cada vez que vejo um jovem cheio de vida tombar
diante das drogas, mais me conscientizo que este é o elo mais
frágil deste corrente. Mas, ao mesmo tempo, é o único
que está ao alcance das nossas mãos e da nossa capacidade
de reagir. Talvez seja a única e decisiva possibilidade que temos
de romper esse ciclo e o raciocínio é lógico e
objetivo: sem usuário, não haverá espaço
para o produtor e nem para o traficante ! Onde e como iniciar
esta grande revolução?
-
Em cada lar, em cada escola, em cada igreja, em cada clube, em toda
e qualquer instituição onde estiver um ser humano disposto
a combater esta grave pandemia social. Urge que sejamos rápidos,
competentes e estejamos dispostos a realizar a maior cruzada do Homem,
desde a sua criação. Não será uma batalha
fácil; pelo contrário, será difícil, longa,
cheia de incertezas e desalentos. Mas, urge que se inicie já,
utilizando todas as forças do bem a serviço da humanidade,
sem esmorecimento e sem tréguas.
Carlos Reinaldo
de Souza é pós-graduado em Bioética pela PUC-Minas
e diretor científico da ACLCL.
Amo-te
muito
Paulo
D. Bellavinha
Cadeira nº 99
Conselheiro
Lafaiete foi, ao longo do Século XX, uma cidade privilegiada
pela imensa quantidade de forasteiros notáveis que aqui se aportaram.
Em 1936, chegava à Lafaiete o jovem engenheiro Ary de Mello Belisário,
oriundo de Nova Lima, onde trabalhou na Sant John Del'Rey Mining.
Natural
de Pedro Leopoldo, conterrâneo do não menos notável
professor Astor Vianna, estudou em Belo Horizonte e Ouro Preto, onde
se formou na Escola de Minas em Engenharia Civil e Metalúrgica.
Neste mesmo ano de 1936, meu irmão Pedro Bellavinha, com 16 anos,
ingressava, como o Dr. Ary, na A. Thum e Cia. Ltda., empresa alemã
que explorava a mineração de ferro em nossa região.
Ainda
naquele ano, casou-se na igreja de Santa Ana, em Belo Horizonte, com
a linda ouropretana Maria José Teixeira de Lima.
Católicos
fervorosos, trataram logo de povoar seu lar com uma linda e inteligente
prole: Ana Maria, Cláudio, Marcos, Paulo, Alberto, Mônica,
Maria da Glória, Maria Virgínia, Pedro, José e
Laura foram a alegria da linda mansão denominada por eles como
a “residência encantada”, como gostam de dizer até
hoje e que é, atualmente, sede do 31º Batalhão da
Polícia Militar de Minas Gerais.
Em
1939, A. Thum promoveu Dr. Ary a Chefe Geral, ficando responsável
pelas minas de Lafaiete, Água Preta, Casa de Pedra, Cocuruto
e São Gonçalo do Brandão.
Com o advento da 2ª Guerra Mundial, da qual participou o Brasil,
o governo decidiu nacionalizar todas as empresas de origem alemãs
e italianas que operavam no país.
Com a inauguração de C. S. N. – Cia Siderúrgica
Nacional - em Volta Redonda (doada ao Brasil pelos Estados Unidos da
América) e a nacionalização de diversas outras
minerações, Dr. Ary passou a chefiar a empresa em todo
o estado.
Enquanto
isso, Dona Maria José presidia a organização das
Pioneiras Sociais, praticando a filantropia junto às camadas
mais necessitadas da comunidade, sem se esquecer, todavia, da educação
de seus filhos.
Dr.
Ary, alcunhado pelos próprios funcionários como “o
amigo dos operários”, foi um dos fundadores do Lafaiete
Sider Clube, sendo seu presidente honorário. Foi também
sócio ativo do Lions Clube de Lafaiete.
Em
1961, foi convidado para dar a aula inaugural do ano letivo da Escola
Federal de Minas de Ouro Preto.
Foi
condecorado com a Medalha de Mérito Industrial pela Federação
das Indústrias de nosso estado.
Em
homenagens póstumas, seu nome foi dado a uma escola municipal
de Congonhas e a uma rua do Bairro Siderúrgico de Lafaiete.
Concedido pela Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafayette,
seus filhos receberam o Diploma da Ordem dos Construtores do Progresso
de Conselheiro Lafaiete..
Ainda
em homenagem póstuma, através da lei nº 12.394, de
autoria do Deputado Dr. Arnaldo Francisco Penna, a rodovia que liga
Lafaiete a Ouro Branco recebeu a denominação de Engº.
Ary de Mello Belisário.
Em
14 de julho passado, seus familiares realizaram, em comemoração
ao 1º centenário do nascimento de Dr. Ary e 95 anos, também
de nascimento, de Dona Maria José, uma missa rezada no Mosteiro
Nossa Senhora das Graças e uma recepção no Espaço
Guignard de Belo Horizonte, que denominaram “Amo-te Muito”,
ocasião em que compareceram centenas de amigos e antigos companheiros
de trabalho de Lafaiete.
Foi
por ocasião dessa recepção que Pedrinho, filho
de Dr. Ary, lembrou-me da crônica que publiquei há alguns
anos em homenagem ao seu pai e que, em determinado trecho, relato um
fato acontecido por ocasião do Congresso Mundial de Geologia
realizado em 1956 na Cidade do México, quando representou o Brasil,
e que me permito reproduzi-lo: Dr. Ary, com a alegria e a verve que
Deus lhe deu, contou-me que em um momento de descontração,
em uma recepção, um engenheiro mexicano apreciador da
música e de cantores brasileiros, indagou-lhe o nome do cantor
de que mais gostava.
Dr.
Ary, sempre acompanhado de Dona Maria José, apesar de freqüentar
os bailes de nossos clubes, não tinha tempo para ouvir rádio
e conhecer nossos cantores.
Quem ele via e ouvia sempre cantar em nossas festas era o ótimo
funcionário da C. S. N. e dublê de cantor e de declamador
Jair Junqueira.
Para
não deixar o mexicano sem resposta, respondeu em inteligível
“portunhol” :
“EL CANTANTE BRASILENHO QUE MAIS ME GUSTA, SE LHAMA RAIR RUNQUERA”.
Dr.
Ary e meu irmão Pedrinho, que haviam ingressado na A. Thum em
1936, por uma dessas ironias do destino, faleceram em 1969.
Uma
coincidência que sempre nos emocionou.
Paulo D. Bellavinha é presidente do Conselho Superior da ACLCL